Por que ninguém consegue responder esta pergunta?

Esta semana, a revista Veja estampou em sua capa a pergunta: “Por que o Brasil tem o iPhone mais caro do mundo?” Na reportagem de oito páginas, eles culpam o custo Brasil e listam inúmeros motivos que explicariam os preços mais altos do iPhone – e de roupas, acessórios e perfumes – no País. Só que eles deixaram um grande problema de lado.
A Veja começa a explicar a diferença de preços com o câmbio: o real é uma das moedas mais valorizadas do mundo, o que torna mais barato comprar no exterior. Isso cria uma diferença de preço entre Brasil e EUA, mas obviamente explica apenas parte do problema.
Sim, a Veja cita os pesados impostos que pagamos: nosso imposto sobre o consumo, o ICMS, varia entre 16% e 18% e pode chegar a 25%; nos EUA, o imposto correspondente mais alto é de 9,5%. A revista não menciona de forma explícita o imposto de 60% sobre importações, mas lembra que a tarifa média de importação no Brasil é o triplo do praticado nos EUA e Europa. Estamos em 99° lugar no ranking mundial de livre comércio – mesmo assim, estamos à frente de outros países, como Rússia, Índia e China.
Então, considerando esses impostos, um produto importado deveria custar no máximo o dobro que nos EUA, certo? Mas este não é sempre o caso: certos produtos – como laptops – são lançados aqui até ao triplo do preço que seus correspondentes nos EUA. O próprio iPhone, que nos EUA não mudou de preço entre uma versão e outra, aqui custa até 44% mais caro – só que os impostos não mudaram, e o câmbio aumentou muito pouco (cerca de 6%) para explicar a diferença. Segundo o iG Economia, quase metade do preço do iPhone no Brasil é imposto – mas a outra metade com certeza não é só o custo do aparelho. A Veja nunca menciona esses fatos.

O que explica isso? A reportagem passa boa parte do texto discutindo a infraestrutura brasileira e a burocracia para se abrir negócios no país, mas o real problema – além dos impostos – só é apontado de leve:
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E só. Nenhuma menção específica a fabricantes, nenhuma investigação sobre varejistas. Ora, tablets nacionais receberam incentivos fiscais, mas permanecem pelo menos tão ou mais caros que os importados. Grandes varejistas mantêm margem de lucro altas – mínimo de 25%, da última vez que vimos – enquanto nos EUA elas são obrigadas a manter taxas menores devido à concorrência. Mas nada disso foi sequer mencionado.
A Veja se esqueceu do lucro Brasil.
A conversa de que “os impostos são altos e isso explica tudo” não se sustenta há anos. Baixamos o imposto dos tablets e eles permanecem caros – e ainda queremos baratear smartphones da mesma maneira. Não deu certo, e estamos insistindo no erro. A questão é: por que não deu certo? Quem tem que ceder, e como fazemos isso virar realidade?
Os brasileiros, pelo visto, cansaram de esperar pela resposta. Eis outra explicação que a Veja dá para os preços menores nos EUA: os americanos não são trouxas.
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Os brasileiros também evitam cada vez mais os preços altos: um número cada vez maior de pessoas não compra mais gadgets pelo preço “oficial” do Brasil. Acreditamos que os 1.650 dólares cobrados no Brasil pelo iPhone 4S, que estampa a capa da Veja, é só para quem tem dinheiro sobrando, ou não conhece outros meios de comprá-lo. Quem não tem esse dinheiro e/ou é mais experiente, há duas alternativas que crescem cada vez mais: ou comprar no exterior, ou comprar pela internet a preços mais “justos”.
Lembra quando o empresário gaúcho Henri Chazan soltou a frase “Como sou pobre, só compro nos Estados Unidos”? Isso foi há quase dois anos, e vale mais do que nunca. O número de turistas brasileiros em Nova York duplicou em dois anos. Os 700.000 conterrâneos na Big Apple ainda são menos que canadenses e britânicos – mas nenhum outro povo gasta mais que nós na cidade. E em Miami, os brasileiros estão em segundo lugar quando se trata de comprar, gastando US$1 bilhão nos primeiros seis meses de 2011. Até mesmo as companhias aéreas estão notando este novo hábito do brasileiro. Segundo o Estadão, a TAM já coloca mais combustível nos aviões que voltam de Miami, além de recalcular a calibragem, por causa do excesso de peso. A TAM diz que seus passageiros voltam de Miami com pelo menos dez quilos de bagagem a mais – e, às vezes, excedem o limite.
A diferença de preços é tão grande que, como aponta o Wall Street Journal, “brasileiros economizam tanto comprando nos EUA em vez do Brasil que frequentemente [a diferença] cobre sua passagem para os EUA e hospedagem”. Novamente, isso era verdade há anos, e continua sendo.
Mesmo assim, comprar no exterior — ou pedir para um conhecido comprar — não é uma opção para todos, e tem seus riscos: em um ano, aumentou em 60% o número de retenções de bagagem “excedente” no aeroporto de Cumbica. Por enquanto, são na maior parte roupas e acessórios, mas isto pode mudar.
O que fazer? Comprar via internet nos lugares certos. Temos a forte suspeita de que sites como MercadoLivre e DealExtreme, assim como várias lojas online – que oferecem preços bem mais próximos aos dos EUA – estão se tornando aos poucos a grande alternativa para comprar gadgets. Nem que seja um pouco mais caro que em lojas do exterior, nem sempre vale a pena viajar para comprar o que você precisa. E, claro, consultar o Dealzmodo todo final de semana, ficar de olho em promoções e comparar preços em sites como Buscapé e Shopping UOL também ajuda a evitar que você pague muito mais caro.
Enquanto os impostos permanecerem altos, o lucro Brasil não for devidamente explicado – e reduzido – e os benefícios fiscais não se refletirem para o consumidor, continuaremos dando um jeito de pagar menos.
Fonte
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Gostei muito dessa reportagem, especialmente porque criticou a veja. Pra quem não lê revistas, a veja é a versão brasileira da Fox NEWS. A mídia conservadora e que só defende a elite.






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